quarta-feira, 18 de abril de 2018

Análise e resumo da obra A Metamorfose Franz Kafka - Vestibular UFU 2018 -






Sinopse
A novela publicada em 1915 é uma narrativa fantástica em que o personagem central, Gregor Samsa, ao despertar certa manha, "depois de um sono intranquilo, achou-se em sua cama convertido em um monstruoso inseto". Depois desse começo abrupto, a historia se desenvolve em torno das mudanças de comportamento que Gregor observa em si e na sua família. (Fonte Edição de Bolso da Saraiva)

Resumo e análise da obra

Gregor Samsa era o filho que sustentava a casa, seus pais mais avançados em idade e de saúde mediana dependiam inteiramente do jovem, assim como sua irma mais nova Grete (a violinista). Um dia Gregor acorda transformado em um bicho misterioso, tudo indica um inseto, e não vai trabalhar, com isso todos dirigem-se para o quarto e chamam por ele, ate o chefe de Gregor aparece (o que já da indícios de como ele era explorado em seu serviço de caixeiro-viajante) … Quando descobrem o ocorrido com o filho todos se apavoram, mas com o passar do tempo buscam formas alternativas de suplantar as dificuldades – com isso os que antes eram incapazes de trabalhar tornam-se trabalhadores (o pai, a mãe e ate mesmo a irmã).

Cuidar do inseto torna-se um fardo `a família que passa a despreza-lo, a irmã já não quer mais limpar o quarto do irmão, nem ligam se ele esta comendo ou não, e nem tentam manter alguma comunicação com ele. Isso torna-se muito doloroso para Gregor que tem consciência de sua situação perante os seus e perante a sociedade. 

Em muitos momentos ele se enfurece e se entristece com o que vive, e ocorrem cenas marcantes como quando Gregor vai ouvir a irma tocando violino e esta fica muito nervosa com sua presença na sala, grita e pede ao pai que o expulse. Este lança varias maçãs contra o filho, que sente as feridas tanto físicas quanto emocionais de se ver repelido por todos. (Eu realmente achei essa parte a mais triste e chocante do livro. Não direi o final da historia para que aqueles com curiosidade leiam a obra e depois reflitam sobre a mensagem que ela transmite).

“… quando nesse momento alguma coisa, atirada de leve, voou bem ao seu lado e rolou diante dele. Era uma maça; a segunda passou voando logo em seguida por cima dele. Gregor ficou paralisado de susto; continuar correndo era inútil, pois o pai tinha decidido bombardeá-lo. Da fruteira em cima do bufê, ele havia enchido os bolsos de maçãs e, por enquanto, sem mirar direito, as atirava uma a uma. As pequenas maçãs vermelhas rolavam como que eletrizadas pelo chão e batiam umas nas outras. Uma maçã atirada sem força raspou as costas de Gregor, mas escorregou sem causar danos. Uma que logo se seguiu, pelo contrário, literalmente penetrou nas costas dele. Gregor quis continuar se arrastando, como se a dor, surpreendente e inacreditável, pudesse passar com a mudança de lugar; mas ele se sentia como se estivesse pregado no chão e esticou o corpo numa total confusão de todos os sentidos…”

Assim, o livro A Metamorfose explora a solidão, os sentimentos de exclusão e as crises do homem contemporâneo, sendo uma referência da literatura universal para se abordar com profundidade aspectos sociais. Nele estão destacadas as contradições que envolvem as relações humanas – pois quando a família descobre a transformação vivenciada por Samsa, ele passa a ser desprezível e deve ser eliminado. 

A impotência de Samsa, por exemplo, perante ações que antes lhe eram rotineiras como sair da cama ou caminhar, faz uma alusão às fraquezas humanas diante de pressões sociais. O livro denuncia como a sociedade atual capitalista restringe o valor do ser humano ao que ele produz e às aparências – uma nítida associação do ser a um produto que pode ser substituído como uma máquina ou algo semelhante. 

A obra foi escrita em 1912, dois anos antes do início da Primeira Guerra Mundial. O clima de agonia e pessimismo mantido por Kafka é apontado por alguns autores como relação direta com o cenário mundial da época em que a obra foi escrita.

Apesar de ter sido escrita no início do século XX, a obra permanece atual porque explora temas característicos da sociedade contemporânea, como a crise existencial, a desesperança do ser, pessimismo, a ausência de resposta, a solidão, impotência e a fuga. 


 Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto.

É assim que Kafka inicia a história de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que deixou de ter vida própria para suportar financeiramente todas as despesas da família. Numa manhã, ao acordar para o trabalho, Gregor vê que se transformou num inseto horrível com um "dorso duro e inúmeras pequenas patas". A princípio, as suas preocupações passam por pensamentos práticos relacionados com a sua metamorfose, principalmente com o fato de estar atrasado para o trabalho. Depois, as preocupações passam para um nível psicológico e sentimental. Gregor sente-se magoado pela repulsa dos pais à sua metamorfose. Apenas a irmã se digna a levarlhe alimento, mas mesmo assim repulsa e medo de sua parte também se manifestam.
A leitura da narrativa da Metamorfose instiga sensações e impressões que variam de uma tomada de interesse completo a um asco, uma aversão e, por vezes, uma perturbadora presença do humor – como observou Brod em 1913: - que, mesmo após findada a leitura, não deixa o leitor, pois várias perguntas permanecem ali sem resposta, diversas inquietações e muitas lacunas a serem preenchidas.

A primeira questão digna de atenção é na realidade o cerne do livro, mas que em nenhum momento é posta em pauta: o porquê da metamorfose de Gregor Samsa. Em nenhum momento o protagonista se pergunta o motivo que terá desencadeado o seu processo transformatório de homem em inseto. Talvez, se tivesse refletido sobre essa questão – na realidade um questionamento básico e óbvio em processos bruscos de mudança - pudesse ele não reverter o quadro de sua situação, mas ao menos entendê-la melhor, sendo capaz de aprender, crescer, amadurecer e mudar.

A leitura da obra kafkiana requer uma atenção especial à sua linguagem protocolar e à forma de construção textual, sem o qual o autor não teria atingido o estranhamento intrínseco e característico que a constrói.

Pelo fato de ter estudado tanto Direito quanto Germanística e também de ter trabalhado no meio jurídico, Kafka tinha consciência de que, para atingir o estranhamento que lhe é peculiar, causando a estranheza no leitor, e também para ser capaz de exprimir uma agonia contínua em suas narrativas, a opção por uma linguagem de forma protocolar (burocrática) era a melhor a ser utilizada. Entretanto urge destacar que essa linguagem era por ele adotada somente nas obras que escrevia com caráter impessoal. Sua Carta ao Pai, por exemplo, que foi escrita não no intuito de uma futura publicação, mas sim verdadeiramente para ser lida por seu pai, apresenta uma linguagem íntima e pessoal (sendo escrita em alemão, língua que era também falada no seio familiar), em nada protocolar. Ou seja, o "protocolar" fazia parte de sua arte, não sendo uma característica comum e cotidiana de sua fala e escrita pessoais e, como bem enfatiza Anders, em Kafka "não existem, propriamente, diferenças entre as linguagens dos tolos, dos inteligentes, dos grandes ou dos pequenos. É natural que tal linguagem da distância exclua determinados tons (...)" (Anders, 1969, p. 72). Logo, a escrita literária de Kafka, por ser protocolar, é marcada por seu tom desapegado, imparcial e impessoal, atentando ao menor detalhe e abrangendo os temas de alienação e perseguição, sendo, entretanto, sempre a culpa o motor constante.

Os seus contos são julgados como verdadeiros e realistas, pois os personagens kafkianos sofrem de conflitos existenciais, como o homem de hoje. No mundo kafkiano, os personagens não sabem que rumo podem tomar, ignoram os objetivos da sua vida, questionam seriamente a existência e acabam sós, diante de uma situação que não planejaram, pois todos os acontecimentos se viraram contra eles. Por isso, a temática da solidão como fuga, a paranoia e os delírios de influência estão muito ligados à obra kafkiana.


Muitos críticos tendem a analisar os trabalhos de Kafka partindo primeiramente de uma base biográfica e comparam suas obras com aspectos da vida pessoal e da psique do autor, além da influência da época histórica em que nasceu. Definem, assim, suas obras como meros espelhos de seus sentimentos e frustrações, ou uma forma de o autor "trabalhar" com eles, como uma auto-análise para entender-se e curar-se ou, pelo menos "pôr tudo para fora", desabafando seus mais íntimos sofrimentos com um público anônimo. "O que Kafka escreve é ele mesmo, o ser em si. Sua literatura é seu eu feito letra" (Backes, 2008). Essa forma de interpretação, embora se baseie em fatos coerentes e reais, e de forma alguma poder ser taxada como falsa ou errônea em si, encerra uma limitação e de certo modo simplicidade que não satisfazem de todo uma interpretação mais abrangente e filosófica, o que os textos kafkianos com certeza exigem.

Outra tentativa que se faz toma o caminho da colocação da questão social: ano 1912, véspera da Primeira Guerra Mundial; explosão do capitalismo através da industrialização; a Belle Époque francesa; um judeu nascido no leste europeu, falante de alemão, que estudou na Áustria e morava na Suíça... Um ser agnóstico vivendo numa religiosidade imposta e ao mesmo tempo um artista frustrado que não tinha a "permissão" paterna de florescer.

Todo esse contexto em que o então já confuso – e por isso mesmo frustrado e deprimido - Kafka vivenciava em seu meio, vendo sociedades mergulhadas em um capitalismo supérfluo, com crenças diversas, sem conseguir se adequar a nenhuma delas, são fortes argumentos para formas interpretativas desse cunho histórico/biográfico.

Poder-se-ia extrair também de sua "metamorfose" um estudo dialético do tema "trabalho", pois o trabalho, em qualquer forma de governo, é tema central e digno de debates, filosofias e enquadramentos. Ora, qual foi o principal efeito da metamorfose não só sobre Gregor, mas também sobre a família como um todo? Antes da transformação, Gregor literalmente vivia para e pelo trabalho, já seus familiares eram apenas seus parasitas, não produziam nada. Nas estranhas famílias de Kafka, o pai sobrevive às custas do filho, sugando-o como um imenso parasita. Não consome apenas suas forças, consome também seu direito de existir. Após o incidente, este é que passou a ser o parasita, o imprestável que não servia mais para trabalhar, e a família desabrochou para o mundo laboral. Aqui podiam tanto o capitalista quanto o marxista apontar o tema trabalho como a questão central kafkiana do livro e desenrolar longas teses de como Kafka se colocou a respeito desses temas sociais em sua obra.


Mas vamos pôr agora todas essas avaliações e interpretações de cunho biográfico, histórico, político e social de lado e tentar nos concentrar no que realmente importa: a história em si. Tentemos fazer uma análise da narrativa colocando de lado todos esses fatores. Esqueçamos por algum momento quem foi o autor, qual foi o ano e sob que circunstâncias foi produzido o texto em questão. O que nos resta? Uma história que se apresenta de forma surrealista, isto é, fantástica, mas que na realidade é bem realista, com várias facetas profundas a serem reconhecidas e inúmeras formas de ser interpretada, uma história atemporal que se encaixaria até mesmo nos dias de hoje.


Nenhum autor representou de forma tão contundente a modernidade. Segundo o crítico literário George Steiner, "o extremismo da posição literária de Kafka (...) torna a estrutura representativa e a centralidade de sua façanha mais notáveis. Nenhuma outra voz foi testemunha mais verdadeira da natureza de nossos tempos." (Steiner, 2003, p. 147). Temos aqui um homem (Gregor Samsa) que há muito não vive mais sua vida. Um homem que abdicou de ser quem era (ou poderia ter sido) para se dedicar somente ao trabalho. Mas trabalhar não por prazer ou dom, no sentido de realização do indivíduo, e sim de fato apenas para quitar uma dívida que nem sua era, mas sim de seu pai. Pai este que, após a ruína de seu negócio, não era mais "capaz", tornou-se praticamente um inválido, dependente do filho. Gregor, por sua vez, se via na obrigação de cumprir esse compromisso. Isso posto, fica clara para o leitor a situação que se estabelecerá ao longo dos cinco anos seguintes no âmbito familiar do protagonista: mãe doente, asmática, abatida, incapaz e dependente; pai doente, envelhecido, abatido, incapaz e dependente; irmã jovem, amedrontada, infantil, incapaz e dependente; Gregor: saudável, ativo, trabalhador, capaz. Mas todos infelizes.

Na realidade, Gregor não é um mero empregado que cumpre sua função. Muito pior que isso: ele é visivelmente um escravo de seu empregador, fato que estranhamente em nada incomoda seus pais. Esse fato passa ao leitor a impressão de que seus pais não o veem como um filho, um ser humano digno e merecedor de uma vida própria. E ele mesmo, Gregor, também não se vê assim – aqui ficam em aberto pontos para outras interpretações das causas desse anulamento do seu ser (pela visão marxista, seria este o anulamento do humano nas relações de trabalho, causado pela reificação do nosso mundo).


Após a metamorfose de Samsa, ponto principal e culminante, o clímax de toda a narrativa que é logo de início apresentada ao leitor, tudo muda não só para Gregor como para sua família. Mas analisemos primeiramente o fato em si: por que Gregor sofre esta mudança? Será que no seu íntimo era isso mesmo que queria, por ver nisso a única fuga (refúgio) possível dos seus tormentos e da sua vida miserável? Ou será que isso ocorre porque ele justamente há muito renegara sua própria existência como pessoa? Questionamentos que dificilmente poderemos responder, mas que são dignos de profunda reflexão
.

A utilização de uma linguagem impessoal, ao mesmo tempo culta, mas de acesso e entendimento ao leitor comum, a forma de narração lenta e excessivamente descritiva, a atmosfera de suspense e agonia, é criada do início ao fim, tudo isso somado provoca um verdadeiro mergulho do leitor no mundo de Kafka. Este, ao mesmo tempo em que aproxima, diminuindo a distância entre o leitor e a obra, causa um forte estranhamento pelos acontecimentos bizarros e os comportamentos por vezes tão humanos que por vezes parecem desumanos. E o leitor, simultaneamente atento e curioso, mas com verdadeiros surtos de repulsa, aversão e incompreensão (tenta-se esquecer que Gregor virou um inseto repugnante e tenta-se vê-lo como homem), mesmo com tudo isso não consegue (e nem quer) largar o livro, pois ele, no seu íntimo, no âmago do seu ser, está como a apreciar um quadro divinamente pintado, de uma arte inigualável, que apesar de expressar uma sociedade execrável, dura, deplorável, distorcida e desumana, mostra o que a realidade na verdade é. E, citando Anders, "O espantoso, em Kafka, é que o espantoso não espanta ninguém." (Anders, 1969, p. 19). Esse é o paradoxo artístico crucial da obra kafkiana, que por sua eterna atemporalidade e arte as tornaram imortais.

A metamorfose de Gregor Samsa em um inseto seria uma simbologia, um tipo de metáfora, para representar o repentino surgimento de uma deficiência física e/ou mental do personagem em questão, trazendo então à tona na sua família e na sociedade o preconceito e a hipocrisia inerentes destas em relação a pessoas portadoras de alguma deficiência, que em geral são vistas com estranheza, desdém, medo e até mesmo aversão. Essa visão da metamorfose de Gregor (por exemplo, o surgimento de um tetraplegia) se encaixaria sem lacunas na narrativa, tanto pelo comportamento do seu empregador – que no mesmo momento quer apenas livrar-se do inseto – como dos integrantes de sua própria família, estendendo-se aos inquilinos dos quartos e até mesmo à empregada, que reconhece naquele ser algo sinistro e curioso de se apreciar. Essa forma de entender a obra seria bem aceitável, pois a realidade de nossa sociedade, em especial no que diz respeito a esse assunto, infelizmente manifesta-se claramente nesse cenário.

Da mesma forma, a metamorfose poderia representar uma súbita mudança de postura diante da vida, de ideias e pensamentos diversos dos que se tinha anteriormente e/ou que eram pressupostos e aceitos pelo seu meio. Por exemplo, uma nova ideologia política, uma nova visão religiosa ou até mesmo filosófica perante a vida, um desejo de mudança radical de profissão. Poder-se-ia aqui até mesmo ir mais longe e encontrar um tipo de profecia kafkiana: na Segunda Guerra, os judeus, antes a base econômica da Alemanha, são como que por uma "metamorfose", vistos de forma totalmente oposta, como os parasitas daquela sociedade, parasitas estes que necessitavam ser eliminados. E o que ocorre é justamente isso: a tentativa de extermínio desses "insetos". A metamorfose seria aqui a súbita guinada do governo e da população alemã contra os judeus.

Por outro lado, a posterior metamorfose dos membros da família, que de prostrada e doente, parasita e dependente, se torna ativa, saudável, independente e auto-suficiente nos encaminha para uma outra possível forma de interpretação. A postura de Gregor, anterior à sua transformação, de se anular para salvar sua família, por um lado ajudava-a financeiramente, mas por outro inibia e sufocava seu próprio crescimento e expansão. Vê-se aqui então em Gregor não mais uma vítima, mas sim um vilão. Essa forma ambígua de ver essa situação nos mostra que a metamorfose seria então um re-equilíbrio de uma situação que estava em pendência, uma redenção de algo que necessitava ser restaurado. A "saída" de Gregor do campo de ação familiar abre espaço para o desabrochar de todos os integrantes da família. Assim, a metamorfose seria na realidade benéfica. Ou seja, aqui a metamorfose de Gregor seria como símbolo de libertação dos membros de sua família, já que eles, após sua transformação, quebraram as amarras do ciclo vicioso da dependência.
   
      Mais algumas questões importantes

Além da metamorfose em si de homem em inseto e da postura da família em geral perante a vida, há a metamorfose dos sentimentos da irmã, que no início nutria amor pelo irmão, mas depois passa a querer se livrar dele. Ela deve de certa forma ser vista como o elemento-guia da história, pois é ela quem na realidade comanda a guinada dos acontecimentos.


·         O fato de o pai ter tentado, por pelo menos duas vezes, matá-lo, indica o seu desejo de livrar-se do filho-inseto, quer pelo fato de este não lhe suprir em mais nada, quer talvez pelo fato de ver claramente como este "rastejava" pelo seu reconhecimento e aceitação, o que o enojava.


·          A ferida que não cicatriza nas costas, causada pelo pai, primeiramente evoca uma interpretação biográfica da relação de Kafka com seu pai, pois o peso da maçã que carrega nas costas torna difícil uma outra concepção que não esta, ou seja, de Kafka carregando algo nas costas, um peso de uma vida de fardo. Mas por que logo uma maçã? Biblicamente, fruto do conhecimento do bem e do mal, que causou a expulsão do homem do paraíso, a maçã pode oferecer aqui várias analogias: a maçã como a constatação de Gregor de que na realidade não era querido nem amado por sua família; a maçã como veículo catalisador que torna Gregor consciente de seu papel simplesmente supridor para todos da casa; a maçã que tirou o homem do paraíso, como analogia de Gregor estar também sendo expulso de seu "paraíso" de ilusão e engano.

·          Nabokov coloca também a questão do número 3 em pauta: são 3 quartos, 3 portas, 3 membros da família, 3 partes do livro, 3 homens que moram posteriormente na casa, 3 cartas que são escritas. "Die Zahl drei spielt eine herausragende Rolle." (Kafka, 1986, p. 106). Em português, "o número três ocupa um papel excepcional".. A trindade sempre foi um símbolo altamente significativo, entre outras místico, religioso e cabalístico. Saber o que Kafka quis nos dizer ao fazer estes paralelos é difícil, mas o fato é que essa trindade está presente na história, e isto não ocorre somente por mera coincidência. A questão do número 3 se mostra bem interessante e até mesmo intrigante quando observamos que Kafka nasceu e morreu num dia 3. Kafka tinha 3 irmãs, e seus pais tiveram 3 filhos homens. Ele crescerá também sob a influência de 3 culturas.

Sobre o autor

Franz Kafka nasceu em 3 de julho de 1883, em Praga, cidade que na época pertencia à monarquia austro-húngara, tendo sido ele um escritor tcheco de língua alemã. Nascem depois dele dois meninos, que irão morrer pouco tempo após o nascimento, fato que segundo alguns psicólogos especialistas na obra de Kafka será um fator determinante para o sentimento de culpa presente em seus livros. Kafka teve a infância e a adolescência marcadas pela figura dominadora do pai, Herrmann Kafka, um abastado comerciante judeu, e de sua esposa Julie, nascida Löwy, dos quais era o primogênito. Cresce sob as influências de três culturas: a judaica, a tcheca e a alemã. Kafka aprendeu alemão como sua primeira língua, contudo era também quase fluente em tcheco. Estudou Direito e Germanística na Universidade de Praga, onde conheceu seu grande amigo e posterior biógrafo, Max Brod.


Suas obras retratam as ansiedades e a alienação do homem do século XX e tornaram-se proféticas das perseguições que os judeus passariam a sofrer poucos anos após a sua morte. Seu livro Die Verwandlung / A Metamorfose, foi publicado ainda em vida e dedicado a seu pai, em 1915, ainda durante a Primeira Guerra. No ano de 1922, Kafka pedirá a seu amigo Max Brod que destrua todas as suas obras após sua morte. Contra o desejo expresso do escritor, que queria que seus inéditos fossem queimados, Brod publicou romances, textos em prosa, e até mesmo correspondência pessoal e diários. Kafka falecerá dia 3 de junho de 1924 no sanatório Kierling, na Áustria.

                                                                
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quarta-feira, 22 de março de 2017

Terra Sonâmbula - Mia Couto - Análise literária/ Vestibular UFU 2017




Mia Couto, em seu livro Terra Sonâmbula, mistura realidade e fantasia de forma mágica, criando um entrelaçamento entre a tradição e o moderno. Em Terra Sonâmbula, a oralidade perpetua a tradição que faz nascer o futuro sonhado. Na busca por sua identidade o personagem Muidinga vai adentrando no conhecimento ancestral e unindo a tradição à cultura moderna, através de oralidade.

Uma história marcada por guerras e sofrimentos é o que se percebe no imaginário moçambicano. Em 1975, após dez anos de guerra, Moçambique conseguiu sua independência, através de um acordo assinado pela Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e Portugal. No entanto, a guerra civil permaneceu até 1992, quando foi assinado o Acordo Geral de Paz, em Roma a 4 de outubro, pelo Presidente da República, Joaquim Chissano, e pelo Presidente da RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana). Enfim, uma história entremeada por lutas, e que serve como pano de fundo no romance Terra Sonâmbula (1993), de Mia Couto.

Antônio Emilio Leite Couto, Mia Couto, nasceu na Cidade da Beira, província de Sofala, Moçambique, a 5 de julho de 1955. É formado em Biologia e trabalhou como jornalista. Filho de poeta, Mia Couto nunca abandonou a poesia, pois suas narrativas unem a poesia e a prosa. É um autor engajado nas mudanças de seu país, fez parte da FRELIMO. Autor de mais de 15 livros, sendo que só o primeiro foi de poemas, Raiz de orvalho (1983) ganhou vários prêmios com Terra Sonâmbula (1993), entre eles o de um dos 12 melhores livros de África do século XX.

Em Terra Sonâmbula (1993), vemos um mundo de sonhos que se mistura a uma realidade caótica, de guerras e devastação. Seus personagens caminham entre a certeza e a dúvida, entre o onírico e a realidade. Sentem-se perdidos e confusos denotando uma situação de abandono, que é a forma como se encontra o país. É nesse espaço limítrofe entre a realidade e a imaginação que vivem os personagens de Terra Sonâmbula (1993).

Tuahir e Muidinga são os primeiros a serem apresentados como viajantes nesse périplo de aventuras e sonhos, num país destroçado pela guerra. Muidinga, um adolescente e Tuahir um ancião. Na verdade, Muidinga está em busca de seus pais, pois fora salvo da morte por Tuahir e não se recordava de sua infância. Durante a narrativa descobre-se que Tuahir havia salvo Muidinga de ser enterrado vivo, porque havia ingerido um tipo de mandioca que é venenosa e ficara como morto. Nesse sentido, observa-se que o adolescente empreende uma viagem iniciática, conduzido pelo mais velho, Tuahir, pois nos ritos de iniciação, segundo Van Gennep, o noviço é separado da mãe e, durante o ritual, seu corpo é enfraquecido até a perda da memória, sendo então ‘ressuscitado’ para iniciar uma nova vida na fase adulta, Muidinga é considerado morto por sua tribo e depois ‘ressuscitado’ por Tuahir que lhe inicia nos ensinamentos da vida adulta. É interessante observar que a iniciação de Muidinga se dá em etapas, nas quais ele tanto vai sendo ensinado, por Tuahir, quanto vai ensinando. Aos poucos Muidinga vai mesclando a sua cultura que tem com a de Tuahir.

Observe-se que Tuahir não sabia ler nem escrever, enquanto que o garoto sabia. Há uma referência muito explícita a cultura tradicional e a nova imposição da cultura letrada. No entanto, em Terra Sonâmbula (1993) não há uma sobreposição da segunda sobre a primeira, pois se bem observado se verá que, apesar de o letramento estar ligado a Muidinga, este dá continuidade a tradição da oralidade quando conta as estórias dos cadernos de Kindzu a Tuahir. Esse contar é feito ritualisticamente à beira da fogueira, como nas comunidades arcaicas.

Assim, há um reconhecimento da necessidade do novo andar de mãos dadas com o velho; o passado com o presente.

Essa integração do velho ao novo se observa também no capítulo em que é narrada a história de Siqueleto, um ancião que ficara só numa das aldeias abandonadas. Tuahir e Muidinga o encontram porque caem numa armadilha e são salvos por ele. Siqueleto fala a língua local e Muidinga não entende, Tuahir serve de intérprete. Assim, observa-se aqui a dependência do novo ao velho. No final, Siqueleto pede que Muidinga escreva seu nome numa árvore, mostrando agora a dependência do velho ao novo. Logo, esses acontecimentos corroboram para reafirmar o que foi dito: o novo anda de mãos dadas com o velho. Em Terra Sonâmbula (1993), mostra-se que o conhecimento ancestral é necessário para que se possa construir um novo paradigma.

Durante a narrativa, Muidinga e Tuahir viajam pela estrada e encontram um local de parada, um ônibus queimado. Decidem permanecer no ônibus, que é um símbolo da modernidade, do deslocamento; um transporte coletivo, que se encontra sem movimento, contrariando a sua representação para o mundo moderno: “o meio de transporte representa a possibilidade, para o homem, de uma locomoção rápida (que designa o esforço de compensação, o anseio de ganhar espaço perdendo menos tempo, caracterizando assim, que na narrativa o que importa é o tempo transcorrido e não o espaço percorrido.

No momento em que chegam ao local onde está o machimbombo, como é chamado o ônibus na narrativa, Muidinga encontra os cadernos de Kindzu. Nestes cadernos, temos uma viagem contada em suas minúcias, a qual Muidinga lê para Tuahir. Segundo IANNI (1990, p.3), “Mesmo os que permanecem, que jamais saem do seu lugar, viajam imaginariamente ouvindo estórias, lendo narrativas, vendo coisas, gentes e signos do outro mundo.

Os dois personagens, conforme o que diz Seixo, estabelecem a renovação da viagem na paragem, pois sua viagem pelos cadernos de Kindzu cria um novo vínculo com o real, transmudando-o de tal forma, que Muidinga vê a paisagem ao redor do ônibus se modificando: “De fato, a única coisa que acontece é a consecutiva mudança da paisagem. Mas só Muidinga vê essas mudanças. Tuahir diz que são miragens, frutos do desejo de seu companheiro”. (COUTO, 1993, p. 77)

Desejo de mudança, esperança de vida, era isso que Muidinga buscava nos cadernos de Kindzu. Nestes cadernos, o protagonista se acha também numa viagem em busca de transformação. Kindzu quer ser um naparama, um guerreiro mágico, nos cadernos apresenta seu pai, o velho Taímo, que tinha sonhos premonitórios e fantásticos. O velho Taímo morre após a independência de Moçambique. Kindzu, assim como o pai, também tem sonhos que se misturam à realidade. Sonhos que são premonitórios. Ter sonhos, aqui, significa como ter ainda esperança. O sonho está ligado à utopia, ao desejo de mudar. Isso se configura logo nas primeiras páginas de Terra Sonâmbula (1993), pelas epígrafes que abrem o livro.

Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho.
Crença dos habitantes de Matimati

 O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro. Fala de Tuahir (COUTO, 1993, p. 6)

As duas epígrafes são comprovadas logo em seguida pela abertura do primeiro capítulo que se intitula “A estrada morta” e que na primeira linha se lê: “Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada.” (COUTO, 1993, p. 9). Dessa forma, comprova-se ser o sonho o elemento que faz seguir adiante, nele reside a esperança. E a guerra, que mata os sonhos, traz consigo a desesperança e o sentimento de desencanto. Numa terra assolada por esse conflito, seus habitantes já perderam a esperança na vida, por isso deixaram de sonhar. Esse mundo dos sonhos é buscado na narrativa, pois, através da fantasia, Muidinga cria e recria o universo de Kindzu. Vive intensamente cada aventura narrada nos cadernos, a ponto de misturar a realidade e a fantasia; o seu mundo e o de Kindzu. Isso é bastante evidente, no momento em que Muidinga propõe a Tuahir brincarem de Kindzu e seu pai: Tuahir faria o papel do velho Taímo, mas a brincadeira chega ao ponto de se confundir com o real.

E Muidinga se atrapalha em totais confusões. É como se qualquer coisa, lá fundo de seu peito, se estivesse rasgando. E se apercebe que, em seu rosto, desliza o frio das lágrimas. Depois, sente a mão de seu pai lhe afagando a cabeça. Olha o seu rosto e vê que, afinal, seus olhos eram sábios. Foi como se, de repente, toda a bondade dele ficasse visível, redonda. (COUTO, 1993, p. 188)

Logo, Kindzu é Muidinga e vice-versa, através do relato contado, Kindzu reencontra o pai e com ele se reconcilia, e Muidinga encontra em Tuahir o pai que procurava. A cada momento as narrativas de Kindzu e Muidinga vão se tocando e se entrelaçando. Sente-se esse entrelaçamento a partir do momento em que surge no relato a personagem Farida. Ela aparece nos cadernos de Kindzu, conta a sua história e diz que está a procura de seu filho Gaspar. Kindzu se apaixona por Farida. Levada pelos acontecimentos, Farida se isola em um barco que se encontra encalhado, abandonado, como se fosse um barco fantasma. Nesse navio, os dois se encontram e relatam seus sonhos um para o outro. Esse navio pode simbolizar os sonhos impossíveis, uma vez que se encontra encalhado e abandonado como um navio fantasma: “O navio fantasma simboliza os sonhos, de inspiração nobre, mas irrealizáveis, do ideal impossível. ” (CHEVALIER, 1999, p. 632). Além disso, “a metáfora do barco à deriva, símbolo da morte, representa o sentimento de der (rota) que impregna o modernismo e se acirra no pós-modernismo – a modernidade lato sensu”. (LOBO, 1988, p.)

Farida pede a Kindzu que encontre seu filho Gaspar, e ele parte novamente para o continente em busca do filho de Farida. Começa então uma outra viagem, agora de resgate. Interessante observar que em ambas as viagens, tanto de Muidinga quanto de Kindzu, há uma vontade de construir uma identidade. Muidinga para isso quer encontrar seus pais, Kindzu quer se tornar um naparama, um guerreiro que poderia lutar por seu povo. Ambos personagens acabam voltando a lugares já percorridos, no entanto, nunca os veem com o mesmo olhar. Sempre há uma mudança, não no lugar e sim no observador, no viajante. Segundo IANNI (1990, p.19) o viajante “tanto se perde como se encontra, ao mesmo tempo que se reafirma e modifica. No curso da viagem há sempre alguma transfiguração, de tal modo que aquele que parte não é nunca o mesmo que regressa.

Tanto Muidinga, quanto Kindzu vão se transformando durante suas viagens e modificando a maneira como percebem as coisas. Tudo vai se tornando diferente ao olhar de quem, de alguma forma, sofreu uma transformação, uma influência no contato com o outro “A viagem pode ser uma longa faina destinada a desenvolver o eu. [...] um eu que se move, podendo reiterar-se e modificar-se, até mesmo desenvolvendo a sua autoconsciência; ou aprimorando a sua astúcia. ” (IANNI, 1990, p. 14). Nada do que foi visto ontem será olhado da mesma forma hoje, porque já não se é mais a mesma pessoa.

Ao avistar a praia de Matimati, comprovei como são nossos olhos que fazem o belo. Meu estado de paixão puxava um novo lustro àquela terra em ruínas. Aquelas visões, dias antes, já tinham estado em meus olhos. Porém, agora tudo me parecia mais cheio de cores, em assembleia de belezas. (COUTO, 1993, p. 127)

Vidas que se modificam no contato com o outro. A construção da identidade como parte da viagem. Isso é o que se percebe nas páginas de Terra Sonâmbula (1993). Personagens que transitam do sonho para o pesadelo da realidade, que choca e paralisa. Percepções que vão se modificando, à medida que a narrativa avança. O olhar já não é mais o mesmo porque, no caminho, algo foi modificado, não fora, mas dentro do indivíduo que caminha. É o viajante que se modifica e não a paisagem ou o outro.

Nessa modificação do ser, percebe-se que a tradição é vista como algo necessário para que haja uma perfeita harmonia entre o indivíduo e o meio em que vive. É necessário que se conheça o passado para que se possa interferir no presente. Será através da aliança entre o passado e o presente que o indivíduo poderá construir o seu futuro, sem renegar suas tradições, sua cultura e a sabedoria que foi armazenada em cada pequena partícula da tradição de seu povo. Hoje, devido a globalização, a tendência que se observa é a massificação da cultura. Globalizar, criar um mercado comum, com consumidores que sejam fáceis de serem manipulados pela mídia. Ao mesmo tempo, esse mecanismo, que procura uniformizar, cria separações abissais entre os indivíduos, classificando-os em participantes ativos dessa sociedade globalizada ou marginalizados. Estar à margem, no sentido de não ser um consumidor em potencial, não poder fazer parte da grande ciranda de frustrações que o mercado globalizado procura vender: “A sedução do mercado é, simultaneamente, a grande igualadora e a grande divisora.” (BAUMAN, 1998, p. 55). Afinal, o que se vende não são sonhos, mas frustrações.

Nesse sentido, a tradição vem na contramão, mostrando ao indivíduo que a cultura local é primordial nesse mundo globalizado. Preservar as tradições e delas tirar proveito para seu crescimento como indivíduo e, consequentemente, como cidadão participante de uma nação, é o que se percebe nas entrelinhas de Terra Sonâmbula (1993). Isso não significa viver no passado, mas conseguir unir as duas pontas que são presente e passado para através delas construir um futuro concreto, real. Logo, Tuahir e Muidinga aparecem aqui como partes de um mesmo círculo, são imprescindíveis um ao outro “O ancião liga o novo ao velho, estabelecendo as pontes necessárias para que a ordem se mantenha e os destinos se cumpram. ” (PADILHA, 1995, p. 21). É o passado dando as mãos ao futuro. Muidinga representa a inteligência, a esperteza, aquele que detém o conhecimento do novo, vínculo estabelecido com a sociedade moderna do homem branco e capitalista. Tuahir é a continuidade da tradição, representa a sabedoria acumulada através daquela.

Nesse ponto, fica cabal a importância da oralidade nessa viagem. É ela, a oralidade, o meio pelo qual se realiza a viagem. É através da voz de Muidinga que se dá a história de Kindzu. Em cada linha do romance, percebe-se que o contar é importante, conserva-se a tradição não só no conteúdo, mas também na forma, na estrutura da narrativa. Adentra-se na história de Kindzu em capítulos separados da realidade de Muidinga, narrativas encaixadas que se mesclam através da voz deste. A tradição, portanto, perpassa todo o romance, até mesmo na sua construção. Assim, percebe-se aqui a oralidade como símbolo de preservação de uma tradição, da mesma forma que Laura Cavalcante Padilha (1995) aponta nos missossos de Angola.

A viagem é outro elemento que está sempre presente na narrativa, tanto na iniciação de Muidinga como nos cadernos de Kindzu. São várias viagens. Em seus cadernos, Kindzu empreende uma viagem iniciativa, assim como Muidinga ao lê-los. E este, juntamente com Tuahir, viaja nos escritos dos cadernos, e nos ensinamentos de Tuahir, a fim de completar a sua viagem. No final, ainda se tem a viagem de Tuahir para a morte, que é caracterizada de uma forma ritualística, pois Muidinga o coloca em uma canoa para que ele seja levado pelo mar. “A barca é o símbolo da viagem, de uma travessia realizada seja pelos vivos, seja pelos mortos. ” (CHEVALIER, 1999, p. 121). Poeticamente construída, essa passagem de Terra Sonâmbula (1993) consegue transformar a morte em um momento mágico e sublime ao som do mar e das gaivotas. Liberado desse mundo real, Tuahir agora é embalado pela fantasia que se espalha pelas águas de um mar de sonhos.

“ As ondas vão subindo a duna e rodeiam a canoa. A voz do miúdo quase não se escuta, abafada pelo requebrar das vagas. Tuahir está deitado, olhando a água chegar. Agora, já o barquinho balouça. Aos poucos se vai tornando leve como mulher ao sabor de carícia e se solta do colo da terra, já livre, navegável. Começa então a viagem de tuahir para um mar cheio de infinitas fantasias. Nas ondas estão escritas mil estórias, dessas de embalar as crianças do inteiro mundo. “(COUTO, 1993, p. 235)

Atente-se que não é o mundo inteiro, mas o “inteiro mundo”. A colocação desse adjetivo, antecedendo ao substantivo, tem nessa narrativa uma sutil diferença, que traz um importante significado ao contexto. É um mundo que se faz inteiro ao aliar a fantasia, o sonho, as estórias contadas, a tradição, à realidade circundante do presente mundo globalizado. Ao fazer essa junção, tem-se um mundo completo e não fragmentado, um “inteiro mundo”. É nas crianças, que conseguem mesclar a fantasia e a realidade, que reside a esperança desse mundo que se fará inteiro. Nelas é que estão os sonhos de esperança para essa terra escalavrada pela guerra. Então, a viagem empreendida pelos personagens de Terra Sonâmbula (1993) ultrapassa o romance e se configura como uma viagem coletiva. Participa dessa viagem cada leitor que se detenha em suas paragens, na busca dessa individualidade, que se transforma na coletividade da nação.

Esse individual que se transforma em coletivo, dentro do romance, parte de um princípio diferente do individualismo globalizante. Neste, o indivíduo se faz único pela competitividade, pela busca da superioridade egocêntrica. Já na viagem que se configura em Terra Sonâmbula, o indivíduo se faz único porque percebe de maneira diferente o mundo ao seu redor, através da interiorização dos costumes de seu povo e, ao mesmo tempo, ao fazer essa interiorização se percebe integrado a essa comunidade, a essa nação: “A viagem é sempre realizada por uma personagem em busca de uma situação de melhoramento para si própria ou para o grupo” (PADILHA, 1995, p. 38).

 Estrutura que remete ao conteúdo, as viagens empreendidas por Kindzu e Muidinga correm paralelas para no final se entrelaçarem. Muidinga percebe-se partícipe da narrativa de Kindzu e este toma parte da história de Muidinga. Descobrem-se unidos por um ponto comum: Farida. Muidinga, na verdade, é o filho de Farida, Gaspar, por quem Kindzu procurava. Na narrativa que se encontra nos cadernos, Muidinga lê a visão premonitória de Kindzu, no momento de sua morte, na qual ele, Kindzu, se vê frente a Gaspar e grita seu nome. Nesse momento Muidinga adentra nos cadernos, lê sobre si mesmo na narrativa que conta. A história de Kindzu acaba por influenciar a vida de Muidinga. É neste que foram semeadas as esperanças de continuidade de uma tradição que se vê dilacerada. Em Muidinga se percebe a semente lançada na terra. Seus sentimentos fazem agora parte dessa terra porque se sente unido a ela, uma vez que vivenciou, através dos relatos de Kindzu, o encontro com as tradições, com os mitos dessa terra de Moçambique. Percebe-se, então, que Muidinga é a semente plantada nas “páginas de terra” de Kindzu.

“Mais adiante segue um miúdo com passo lento. Nas suas mãos estão papéis que me parecem familiares. Me aproximo e, com sobressalto, confirmo: são os meus cadernos. Então, com o peito sufocado, chamo: Gaspar! E o menino estremece como se nascesse por uma segunda vez. De sua mão tombam os cadernos. Movidas por um vento que nascia não do ar, mas do próprio chão, as folhas se espalham pela estrada. Então, as letras, uma por uma, se vão convertendo em grãos de areia e, aos poucos, todos meus escritos se vão transformando em páginas de terra.” (COUTO, 1993, p. 245)


No final dessa viagem, há o encontro do velho com o novo. A tradição que é semeada no futuro. Nasce junto com Muidinga a esperança de um tempo. Um tempo repleto de sonhos, de fantasias, no qual a estrada esteja viva e dê passagem aos sonhadores, viajantes da terra. Muidinga nasce de novo ao descobrir a sua identidade; e Moçambique precisa reafirmar sua identidade descobrindo novamente sua cultura, suas tradições, não deixando morrer o velho em detrimento do novo: ao contrário, fazendo com que toda uma sabedoria do passado seja terreno fértil para receber as sementes do futuro. Nas páginas de Terra Sonâmbula (1993), Mia Couto semeia a esperança de um futuro, no qual Moçambique, seja a terra dos sonhos de cada moçambicano: unidos e fortificados pela tradição, ligados à cultura global. Na fala de Tuahir residia a existência de um conhecimento ancestral, assim como nos cadernos de Kindzu que tem suas histórias reveladas através da fala de Muidinga. Assim, a oralidade representa, na narrativa, o elo de ligação entre a tradição e o moderno, pois Muidinga é partícipe da cultura letrada, mas também da cultura que se perpetua pela oralidade. Então, é em Muidinga, que reside a esperança de um futuro de paz e sonhos para essa terra. A criança que une o passado e o presente, através do que lhe contam seus antepassados e através da literatura escrita. Assim como o sonho faz viver a estrada é o contar histórias que cria os sonhos. Mia Couto conta uma história em que o personagem sonha, e é sonhado pelo leitor, pelo ouvinte. Tuahir e Muidinga são ao mesmo tempo narrador e ouvinte. Muidinga é também leitor, assim como o leitor de Mia Couto será leitor, ouvinte e sonhador dessa narrativa. São sonhos de esperança alimentados por cada leitor, cada sonhador que se percebe como um ouvinte das histórias contadas pelas personagens, sente-se então a força da oralidade que perpassa a narrativa. É dessa forma, que se percebe, na viagem por essa Terra Sonâmbula, os sonhos de esperança que nascem dessas “páginas de terra”.

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